“A Invenção do Nordeste”: A ressignificação de um Nordeste de muitas identidades

Peça desfaz estereótipos enquanto brinca com a metalinguagem

Tem coisas que parecem que todos já nascem sabendo. Coisas que são apenas impostas e tomadas como verdade, mas nunca explicadas. É essa a imagem que fazem do Nordeste ao lembrar apenas de seca, cangaço e sertão. Mas a região é extensa e representa muito mais do que um simples sotaque.

A partir da obra do historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, “A Invenção do Nordeste e Outras Artes”, o Grupo Carmin, que recebeu o Prêmio Shell com a encenação, retrata o surgimento e a trajetória histórica da região nordeste, propondo a desconstrução da imagem estereotipada e da identidade nordestina. Esse resgate é feito utilizando itens e referências às personalidades dos dias de hoje.

A peça critica essa “identidade” com a história envolvente de um diretor que tem a missão de recrutar dois atores nordestinos, mas que não são “nordestinos o suficiente” para o papel. Em 7 semanas, buscam entender a região para depois poder incorporar o personagem. No início do show, um embate entre os dois atores sobre quem conhece mais o Nordeste marca o público, cena essa que se repete no fim, após perceberem a banalização de seus trabalhos.

Em 7 cenas, num teatro documental, os atores representam a si próprios, utilizando seus nomes verdadeiros e trazendo para a cena situações que viveram em suas trajetórias artísticas. Isso tudo ainda é reforçado por projeções audiovisuais de imagens históricas que retratam, inclusive, cenas de xenofobia, e que traçam um paralelo entre os anos de 1877 e 2023.

Quitéria Kelly, diretora da obra, conta que essa imagem foi, por anos, alimentada pela TV, pelo cinema e pela literatura. A partir de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, também citado durante o espetáculo, a população “bebeu da fonte” em que o autor descreve o sertanejo como “alguém permanentemente esfomeado, fatigado, de corpo malfeito e cabeça grande”. Para a diretora, “esse estereótipo foi criado pela arte, e só a arte pode desfazer isso”.

A obra, que fez parte da Mostra Lúcia Camargo, foi apresentada nos dias 8 e 9 de abril, às 20h30 e às 19h, respectivamente, no Guairinha, e lotou as duas sessões. Em agosto, o Grupo Carmin retorna à capital, desta vez no SESC da Esquina.

Texto e Cobertura por Ana Bavutti